HISTÓRIA DA MAÇONARIA BRASILEIRA
O pensamento político em favor da reação contra a permanência do poder administrativo francês na realeza associada ao alto clero, que aumentavam impostos conforme a necessidade dos gastos da Corte, repercutiu no Brasil, através do intercâmbio cultural realizado pelos interessados brasileiros nos cursos superiores disponíveis na França. A cidade de Montpellier, localizada no sul da França, foi muito procurada por estudantes estrangeiros, já que a sua Universidade sempre foi importante centro de estudos. Nessa, a Faculdade de Medicina destacou-se na preferência dos brasileiros, conforme relato do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Quinze brasileiros estudaram em Montpellier, entre 1767 e 1793. Entre esses, Arruda Câmara, fundador do Areópago do Itambé, José Joaquim Maia e Barbalho, José Alvares Maciel e Domingos Vidal Barbosa. O primeiro, foi o precursor da Conjuração Mineira, o segundo, o incentivador, e o terceiro, um ativista secundário.
AS ACADEMIAS POLÍTICAS
No ano de 1802, o capitão-mor de Olinda, Francisco de Paula Cavalcante de Albuquerque, fundou na cidade do Cabo (província de Pernambuco), no Engenho de Suassuna, de sua propriedade, a Academia de Suassuna. E no Recife, foi instalada pelo padre João Ribeiro Pessoa, a Academia do Paraíso, tendo como secretário, o monsenhor Muniz Tavares. Ambas as entidades, eram associações políticas secretas, formadas por maçons idealistas, onde se ensinavam as novas doutrinas republicanas na França.
AS PRIMEIRAS LOJAS MAÇÔNICAS
Os
registros consultados por escritores maçônicos revelam que a primeira Loja
fundada no Brasil, formalizou-se em 1800, na cidade do Rio de Janeiro, sob o
nome de Loja União. No ano seguinte o nome foi trocado para Loja Reunião, porque
se transformara em núcleo de encontro e convivência dos maçons dispersos pelo
país.
Em seguida foram fundadas: a Loja Virtude e Razão, na Bahia, em 1802, a
Loja Constancia e a Loja Filantropia, ambas no Rio de Janeiro, em 1804. Essas
foram as primeiras Lojas regularmente organizadas no Brasil. Outras foram
surgindo nas Províncias da Bahia e de Pernambuco. Todas as Lojas inicialmente
constituídas foram vinculadas a federações maçônicas estrangeiras, denominadas
Grande Oriente Luzitano e Grande Oriente da França.
Em 1806, o novo Vice Rei do Brasil, D. Marcos de Noronha e Brito, 8º Conde
dos Arcos, homem violento e contrário à maçonaria, deliberou proibir os
trabalhos dos maçons. Com esse ato, as duas Lojas ainda existentes no Rio de
Janeiro, a Constancia e a Filantropia, tiveram que encerrar sua atividade.
Em Pernambuco e na Bahia, onde a prepotência do Conde dos Arcos menos se
fazia sentir, a maçonaria continuou em atividade, inclusive criando novas Lojas.
Essas foram as primeiras Lojas oficiais e consideradas regulares no Brasil.
O Areópago, embora citado como marco inicial das organizações maçônicas no
Brasil, nunca caracterizou-se como Loja Maçônica, pois, não formava novos
maçons.
Com a chegada ao Brasil de D. João, em janeiro de 1808, depois de uma fuga
precipitada de Portugal ante a invasão napoleônica, automaticamente o governo
passou às suas mãos. Em seu séquito havia inúmeros maçons portugueses, que
colaboraram para a diminuição das restrições à maçonaria, promovendo o
revigoramento da atividade no Brasil.
O PRIMEIRO GRANDE ORIENTE
Em 1813, os maçons ativos nas duas Lojas existentes na Bahia resolveram fundar uma terceira, para viabilizar legalmente a criação da primeira federação maçônica no Brasil. No mesmo ano, instalaram em Salvador, o Grande Oriente Brasileiro, sendo proclamado Grão-Mestre, Antonio Carlos Ribeiro de Andrada.
A MAÇONARIA BRASILEIRA E A POLÍTICA
Mostrou-nos
a síntese histórica produzida até aqui, que a maçonaria brasileira, nos
primórdios do século 19, tomou uma feição política mais acentuada, pois as
características funcionais da Ordem e os compromissos de sigilo com os assuntos
tratados em seus templos fechados, estimularam os defensores dos ideais
republicanos a trabalharem sob os títulos das Lojas maçônicas.
Em 1815, foi fundada no Rio de Janeiro, na residência de João José Vahia, a
Loja Comércio e Artes, que rapidamente adquiriu prestígio e pujança no meio da
maçonaria brasileira. Existiam, na mesma ocasião, mais duas Lojas no Rio de
Janeiro, a Loja Beneficência e a São João de Bragança. Faziam parte dessa
última, o Marquês de Angeja e o Conde de Paraty. Quando D. João VI soube da
existência da Loja S. João de Bragança, deu ordens para que fosse fechada. Ao
Marquês de Angeja dedicou uma punição especial, tirou-lhe toda a prataria e o
mandou sumariamente para Portugal. Quanto ao Conde de Paraty, que era uma
espécie de secretário-escravo de S. Majestade, que sem ele não podia viver,
obrigou-o a andar, durante sete dias dentro do Paço, vestido com o hábito e o
cordão da Ordem de S. Francisco.
Enquanto isso, o movimento político cresceu na Província de Pernambuco,
onde em 1816 já existia até uma Grande Loja Provincial. No desenvolvimento dos
trabalhos das Lojas a ela filiadas, foram sigilosamente feitos os preparativos
para uma Revolução Republicana, que tinha por objetivo a proclamação da
Confederação do Ecuador, uma república federativa. Conforme o relato de
Monsenhor Muniz Tavares na obra - História da República de Pernambuco de 1817 –
o movimento eclodiu no dia 6 de março de 1817 e no dia 13, já estava formada uma
junta governativa e proclamado o novo regime. Mas, foi tão radical e cruel a
reação do governo português, liderada pelo Conde dos Arcos, que a revolução foi
debelada em apenas 74 dias, depois de um grande derramamento de sangue.
Para consolidar a vitória nas armas e prevenir futuras reorganizações dos
grupos políticos, o rei D. João VI resolveu extinguir a maçonaria de uma vez por
todas, baixando o Alvará de 30 de março de 1818, proibindo todas e quaisquer
sociedades secretas em Portugal e em todos os seus domínios, sob as mais severas
penas, inclusive a de lesa-majestade. Essa punição representava a pena de morte
e o confisco dos bens para a Coroa, incluindo dos filhos ou descendentes.
Entretanto, o desejo de liberdade dos povos era tão forte, que nem o alvará
de 1818 e nem as medidas repressivas foram suficientes para arrefecer o ânimo
dos maçons. Novas Oficinas foram sendo criadas para ocupar o espaço das que
tinham sido fechadas. Ainda no mesmo ano de 1818, instalou-se em Portugal, na
cidade de Elvas, a Loja Liberdade. Uma das conseqüências negativas da medida de
D. João VI, foi o fechamento, nesse ano, da tradicional Loja Comércio e Artes,
filiada ao Grande Oriente Luzitano.
Ainda no Rio de Janeiro, grupos de resistência conservaram-se atuantes,
coordenados, principalmente pelo Clube Recreativo e Cultural da Velha Guarda,
que tinha sido formado por Gonçalves Ledo e funcionou num sobrado na rua
Bethencourt da Silva, construído por José Rufino de Souza Lobato, guarda-jóias
da Casa Real. Nesse endereço, mais tarde, funcionou o Liceu de Artes e Ofícios
até 1957. Em 1821, o Clube foi fechado e seus líderes presos, depois de serem
requisitadas tropas fieis do Reino de Portugal, pois as disponíveis estavam sob
suspeita de filiadas aos “conspiradores”. Gonçalves Ledo, 1º Escriturário da
Contadoria do Arsenal de Guerra era considerado o principal idealizador do
movimento de Independência.
Com a partida de D. João VI para Portugal, em 24 de abril de 1821, deixando a
regência do Brasil entregue ao seu filho mais velho, o Príncipe D. Pedro,
abrandou um pouco a vigilância contra os trabalhos da maçonaria e dos clubes
políticos. Aproveitaram-se os antigos integrantes da Loja Comércio e Artes para
reerguê-la, desta vez com o nome de Loja Comércio e Artes na Idade do Ouro.
Novamente em liberdade, sem que até hoje se saiba como obteve, Gonçalves
Ledo, juntamente com o Cônego Januário da Cunha Barbosa, seu dedicado e sincero
amigo, lançou em 15 de setembro de 1821, o primeiro número do “Revérbero
Constitucional Fluminense”, um periódico quinzenal dedicado a difundir os
pensamentos republicanos. No dia 30 de abril de 1822, o Revérbero Constitucional
publica um artigo de Gonçalves Ledo, no qual sugere ao Príncipe Regente a
necessidade de proclamar desde logo a Independência do Brasil. Esse artigo
produziu entusiasmo popular no Rio de Janeiro, sendo Ledo e Januário Barbosa
aclamados nas ruas por onde passavam.
O Príncipe D. Pedro mostrou-se sensível às manifestações e em 4 de maio deu
a importante ordem do “Cumpra-se”, a qual determinava que nenhuma lei vinda de
Portugal fosse executada sem o - cumpra-se - do Príncipe Regente.
FUNDAÇÃO DO GRANDE ORIENTE BRASILIANO
Em 1822, era
grande o número de filiados na Loja Comércio e Artes na Idade do Ouro.
Aproveitando o momento político propício, os Obreiros foram divididos por
sorteio, para formarem três Lojas metropolitanas: a Comércio e Artes, a União e
Tranqüilidade e a Esperança de Niterói. Essas três Lojas serviram de base para a
fundação da primeira Obediência (federação de Lojas) brasileira, o Grande
Oriente Brasiliano ou Grande Oriente do Brasil, em 17 de junho de 1822. Nessa
mesma sessão inaugural, foi nomeado Grão-Mestre, por aclamação, o Sr. José
Bonifácio de Andrada e Silva.
Nas atas dessa primeira fase, constam sinônimos Grande Oriente Brasiliano,
Grande Oriente Brasileiro, Grande Oriente Brasílico e Grande Loja do Brasil.
A CONTRIBUIÇÃO DE HIPÓLITO JOSÉ DA COSTA
Nascido na
antiga Província do Sacramento, a 15 de agosto de 1774, Hipólito José Pereira da
Costa Furtado de Mendonça teve papel decisivo na divulgação dos ideais
republicanos e na destacada representação da maçonaria brasileira na Inglaterra,
seu principal campo de atividade profissional e política, depois de passagens
por Portugal. Fez amizade com o Duque de Sussex, filho de Jorge III, rei da
Inglaterra. Formou-se bacharel em Direito na Universidade de Coimbra,
ingressando na maçonaria nesse período. Em 1798 foi enviado aos Estados Unidos
como Encarregado de Negócios de Portugal. Em 1801 voltou a Portugal, onde foi
nomeado Deputado Literário da Junta da Impressão Régia. Pouco depois foi a
Londres tratar de negócios particulares e onde continuou desenvolvendo
atividades maçônicas. Seu destaque foi de tal ordem na maçonaria inglesa que
teve repercussão em Portugal. Ao voltar para terras lusitanas em julho de 1822,
foi preso e mantido nas masmorras da Inquisição do Santo Ofício durante longos
três anos.
Conseguiu fugir para Gibraltar, voltando para Londres, onde fundou o
célebre Correio Brasiliense, o jornal que prestou relevantes serviços ao Brasil,
na luta pela Independência.
Hipólito José da Costa foi maçom tão ativo enquanto esteve na
Inglaterra, até 1822, que, apesar de brasileiro, chegou a ser Grão-Mestre
Provincial do Condado de Rutland, na Inglaterra e, nesse cargo, depois de
elevado ao Grau 33, foi encarregado, por Patente de 13 de outubro de 1819, do
Supremo Conselho de França, junto com outros Grão-Mestres ingleses, da fundação
do Supremo Conselho para a Inglaterra, Irlanda e Domínios e do qual foi seu
primeiro Secretário. Em 2 de dezembro de 1819, foi proclamado Membro Honorário
do Supremo Conselho de França.
JOSÉ BONIFÁCIO E A MAÇONARIA
José
Bonifácio de Andrada e Silva teve participação importante na emancipação
política do povo brasileiro e, por isso, merece o reconhecimento daqueles que
escrevem a história do Brasil. Entretanto, do ponto de vista da maçonaria, não
se deve escamotear a atuação negativa e hostil com a Ordem, a qual nunca
prestigiou.
Teria sido maçom, José Bonifácio? Alguns fatos falam por si, como a sua
nomeação por aclamação, para o cargo de Grão-Mestre do Grande Oriente
Brasiliano, não estando presente, contudo, na Assembléia Geral da Loja Comércio
e Artes e, nem mesmo, fazendo parte do quadro da Loja. Mas, a nomeação não é
suficiente para provar a condição de filiado anterior à maçonaria, na opinião do
Cônego Geraldo Leite Bastos, autor da obra “Documentos para a História da
Independência”. Em um manuscrito, citado por Mello Mattos, encontra-se,
textualmente, o trecho a seguir reproduzido: “organizada como estava a Maçonaria
no Rio de Janeiro foi nomeado para Grão Mestre da Ordem José Bonifácio, que se
improvisou maçom, sem o ser ...”.
Sobre esse procedimento, é justo esclarecer que muitas vezes a maçonaria
européia aclamou homens “não maçons”, para o cargo de Grão-Mestre, especialmente
em situações políticas complexas e delicadas. E, por esses precedentes, alguns
historiadores, admitem como verdadeiro o episódio da nomeação, provável
iniciativa de Gonçalves Ledo, que conhecia a influência de José Bonifácio sobre
o Príncipe Regente. Além disso, Ledo deve ter pretendido enfraquecer as ações
políticas de José Bonifácio contra a maçonaria, que foram inúmeras, como em 10
de abril de 1822, quando assinou Ordem ao Intendente de Polícia, “mandando
cercar por força armada os ajuntamentos da Maçonaria, prender tôdas as pessoas
encontradas e fazer a apreensão de todos os papeis...”.
Em “O Homem da Independência”, de Assis Cintra, lemos; “mesmo em 2 de
outubro de 1822, quando o próprio Príncipe D. Pedro dirigia os trabalhos do
Grande Oriente do Brasil, na qualidade de seu Grão-Mestre, José Bonifácio
transmite ao Desembargador João Ignácio da Cunha denúncias contra a maçonaria,
mandando aumentar o número de espiões e secretas, ordenando a lei marcial”.
Em sessão do dia 2 de agosto de 1822, foi proposto por Gonçalves Ledo, para
ser Iniciado na Loja Comércio e Artes, o profano D. Pedro de Alcântara. A
proposta foi aprovada por aplauso e na mesma data D. Pedro passou a integrar a
maçonaria brasileira, adotando o nome simbólico Guatimosim. Na sessão seguinte,
em 5 de agosto de 1822, a Loja Comércio e Artes, dirigida por Gonçalves Ledo,
exaltou o Aprendiz Pedro de Alcântara ao grau de Mestre Maçom.
A 7 de setembro de 1822, D. Pedro bradou o “Grito do Ipiranga”,
proclamando, em São Paulo, a Independência do Brasil
Entre os dias 29 de setembro e 3 de outubro de 1822, os maçons reuniram-se
e decidiram extra-oficialmente, candidatar o Irmão Guatimosim ao cargo de
Grão-Mestre. Para concretizar a vontade da maioria, Gonçalves Ledo convocou uma
sessão especial da Loja Comércio e Artes para o dia 4 de outubro de 1822. Na
oportunidade, Ledo esclareceu que a convocação fora para “receber o Juramento do
nosso muito amável e muito amado Ir.•. Guatimosim, eleito Grão Mestre da
Maçonaria Brasileira, por geral aclamação, em plena reunião do Povo
Maçônico...”, como diz textualmente a ata. D. Pedro prestou juramento, tomou o
malhete e assumiu a direção dos trabalhos, no cargo que antes fora de José
Bonifácio, mais uma vez, ausente.
Em sessão regular realizada no dia seguinte, 05 de outubro, dirigida pelo
próprio D. Pedro, o Brigadeiro Domingos Alves Branco Muniz Barreto, saudou com
inflamado discurso o novo Grão-Mestre. No mesmo pronunciamento, fez alusão aos
“embusteiros que, para seus sinistros fins particulares buscam minar o edifício
constitucional”, numa previsão do que viria acontecer 15 dias depois, quando D.
Pedro mandou suspender os trabalhos da maçonaria.
No dia 11 de outubro, nova sessão do Grande Oriente, sendo a última em sua
primeira fase de funcionamento e derradeiro trabalho presidido por D. Pedro. No
dia 12, realizou-se a sua aclamação no cargo.
GONÇALVES LÊDO REJEITA TÍTULO HONORIFICO
No dia 14 de
outubro, D. Pedro envia o seguinte bilhete a Gonçalves Lêdo: - “Sr. Lêdo.
Peço-lhe vir ao Paço, pois é preciso sua presença”. Nessa ocasião, o Imperador
ofereceu o título de Marquês da Praia Grande a Gonçalves Lêdo.
Suspeitando que o convite fora idealizado por José Bonifácio e o reputando
ofensivo à sua dignidade e aos seus sentimentos republicanos, embora sempre
tivesse trabalhado para uma monarquia constitucional, pediu que lhe fosse
permitido recusar um título nobiliárquico. A essa altura, o Conselheiro José
Bonifácio interveio na entrevista, com essas palavras:...”Ora, Senhor Lêdo, é um
prêmio aos seus serviços, no jornal e na maçonaria, em favor da Independência”.
Responde Lêdo: “Não posso aceitar e o melhor título para mim seria o de
brasileiro patriota e homem de bem, contentando-me com a nobreza do coração”.
O Imperador entendeu a recusa de Gonçalves Lêdo e suas palavras, uma
afronta e pediu-lhe que se retirasse do Paço, com palavras ásperas e gesto
descortês, como era seu costume nos momentos de ira.
Gonçalves Lêdo publicou a seguir, três manifestos, sendo o mais importante
deles; Guerra à Fidalguia. Conseguiu ser eleito Deputado pelo Rio de Janeiro,
sem, contudo, ter tomado posse, por que se exilou no exterior.
SUSPENSÃO DOS TRABALHOS NO GRANDE ORIENTE DO BRASIL
A 21 outubro
de 1822, segunda feira, dezoito dias depois de ter sido empossado no cargo de
Grão-Mestre, o Imperador D. Pedro I, enviou bilhete a Gonçalves Lêdo para
comunicar sua preocupação com as notícias a respeito de eventuais protestos dos
maçons, que reivindicavam mudanças no ministério do governo. José Bonifácio
mandara o Intendente da Polícia intensificar a vigilância, que culminou com a
prisão do jornalista João Soares Lisbôa, do Correio do Rio de Janeiro, muito
ligado a Gonçalves Lêdo e à maçonaria.
No bilhete, documento encontrado no arquivo do Castelo D’Eu, estava
escrito: “Meu Lêdo. Convindo fazer certas averiguações tanto públicas como
particulares na Maçonaria, mando primo como Imperador e segundo como Grão-Mestre
que os trabalhos maçônicos se suspendam até segunda ordem Minha. É o que tenho a
participar-vos agora, restante reiterar os meus protestos como Irmão. Pedro
Guatimosim G.M. – São Cristóvão, 21 de outubro de 1822.”
“P.S. – Hoje mesmo deve ter execução e espero que dure pouco tempo a suspensão
porque em breve conseguiremos o fim que deve resultar das averiguações.”
Imediatamente, Gonçalves Lêdo procurou o Imperador e Grão-Mestre para
buscar o entendimento. D. Pedro, depois de ouvir as ponderações de Lêdo,
assimilou-as, mandando libertar o jornalista João Soares Lisboa e revogando a
suspensão dos trabalhos do Grande Oriente.
A 25 de outubro de 1822, na sexta feira seguinte à data do primeiro
bilhete, mandou entregar a Gonçalves Lêdo, novo comunicado, nesses termos: “Meu
Irmão. – Tendo sido outro dia suspendidos nossos augustos trabalhos pelos
motivos que vos participei, e achando-se hoje concluídas as averiguações vos
faço saber que segunda feira que vem os nossos trabalhos devem recobrar o seu
antigo vigor começando a abertura pela Grande Loja em Assembléia Geral. É o que
por ora tenho a participar-vos para que passando as ordens necessárias assim o
executeis. Queira o Supremo Arquiteto do Universo dar-vos fortunas imensas como
vos deseja o vosso Irmão Pedro Maçom Rosacruz.”
Esse segundo bilhete mostra que D. Pedro não chegou a fechar o Grande
Oriente do Brasil e, sim, suspendeu os trabalhos pelo período de uma semana,
entre os dias 21 e 28 de outubro de 1822. O Grande Oriente não retomou suas
atividades na data da revogação da suspensão, por motivos funcionais , e não
legais.
Sentindo-se desprestigiado, José Bonifácio pediu demissão do cargo de
ministro no dia 25 de outubro. Acompanhou- na demissão, seu irmão Martim
Francisco.
No dia 29, apareceu nas ruas uma Proclamação, exigindo a volta dos Andradas e o
Imperador, indeciso, achou por bem recolocar os Andradas no poder, através do
Decreto de 30 de outubro de 1822.
A primeira ordem de José Bonifácio, no mesmo dia 30, foi mandar prender os
ativistas políticos, em sua maioria maçons partidários de Gonçalves Lêdo.
Sabedor das ordens repressivas, Lêdo procurou a casa do amigo Tenente Coronel
Monte para se ocultar. Aí recebeu, no dia 30 ainda, o bilhete do Cônego Januário
da Cunha Barbosa, nesses termos:
“Lêdo – Escrevo precipitadamente, na contingência de ser preso pelos agentes dos
Andradas. José Bonifácio nos intrigou com o Imperador, convencendo-o de que
somos republicanos e queremos sua morte e expulsão. Sei pelo Clemente que a
ordem de nossa prisão já está lavrada. Esse homem que se tem revelado um tigre,
que não fez a Independência, que a impediu até o último instante, e que somente
a aceitou quando a viu feita, agora procura devorar aqueles que tudo fizeram
pela Independência da Pátria, que a conseguiram com os maiores sacrifícios. O
Drummond disse que o déspota faz questão de prender você para enforcá-lo.
Lembre-se do que ele disse na Igreja de São Francisco. Não se exponha, não
apareça na Corte, pois o grande ódio dele recai sobre você, que foi, como
dirigente da Maçonaria, o principal obreiro, o verdadeiro construtor de nossa
Independência. É das escrituras. Cônego Januario – 30 de outubro de 1822.”
Na noite desse mesmo dia, saía Lêdo daquela casa, disfarçado em negra
velha, curvada pelo peso de um grande balaio que transportava à cabeça,
acompanhado por alguns amigos, que o seguiam dispersos. Numa pequena embarcação,
um bote, que já o esperava no Cais dos Mineiros, fugiu para a fazenda em
Araruama, do seu amigo Belarmino Ricardo de Siqueira, mais tarde, Barão de São
Gonçalo. E, aí, escreveu a famosa Representação ao Imperador, que assinou como
Procurador Geral da Província do Rio de Janeiro.
No dia seguinte ao da Representação, José Bonifácio mandou “aviso
reservado” ao Intendente Geral de Polícia, a seguir reproduzido: “É de todo
necessário que se ponha em segurança o sobredito reu Joaquim Gonçalves Lêdo,
mesmo que para isso se use violências ou gastos extraordinários ou se contrate
representantes estrangeiros, protetores de republicanos e carbonários. E Vossa
Majestade fará o possível, se for preciso, para o apanhar de qualquer forma.
Disso dará conhecimento aos seus auxiliares, sendo que gratificará quem o
descobrir, pagando-se um conto de réis, se for homem livre, ou a carta de
alforria, se for escravo”.
No dia seguinte, 4 de novembro de 1822, para arrematar a ordem, foi decretado o
confisco de todos os bens de Joaquim Gonçalves Lêdo.
Graças a ajuda do seu amigo Lourenço Westine, cônsul da Suécia, Gonçalves
Lêdo partira a caminho de Buenos Aires, de onde voltaria um ano mais tarde.
Vendo que a maçonaria, depois da fuga de Lêdo e da deportação ou prisão da
maioria dos seus obreiros, não conseguira se reorganizar, o Imperador, na
qualidade de Grão-Mestre, mandou remover todos os pertences da instituição à sua
Quinta do Caju e, depois de estarem em suas mãos os livros que tinham sido
usados pelas três Lojas Metropolitanas, mandou entregar as chaves do prédio da
rua do Conde ao seu proprietário e as importâncias em caixa ao Intendente de
Polícia.
Segundo pesquisas de Mário Mello, a Loja Seis de Março de 1817, fundada no
Recife em princípios de 1821, por Vicente Ferreira dos Guimarães Peixoto, foi a
única Loja maçônica do Brasil a permanecer ativa depois de 1822, em face da
forte proteção por parte de maçons americanos. Mas, também ela teve de encerrar
suas reuniões em setembro de 1824, ao ser abortada a revolução republicana,
apoiada pela maçonaria pernambucana, que tinha por objetivo a instalação da
Confederação do Equador.
Lêdo retornou a 21 de novembro de 1823. No dia anterior, foram deportados
para o Havre, por ordem do Imperador, através da charrua Lucônia: os três
Andradas, José Bonifácio, Antonio Carlos e Martim Francisco, que haviam sido
demitidos do Ministério em 17 de julho de 1823, Cônego Belchior Pinheiro de
Oliveira, Francisco Gê de Acaiaba Montezuma, José Joaquim da Rocha e seus dois
filhos e Luis e Antonio de Menezes Vasconcellos Drummond.
REINÍCIO DAS ATIVIDADES MAÇÔNICAS
Em 1829, Gonçalves Lêdo voltou
a mobilizar os maçons dispersos pela Província do Rio de Janeiro, visando
reagrupá-los em uma Loja maçônica. E foi o que aconteceu no mesmo ano, com a
criação da Loja Educação e Moral.
Finalmente, a Carta de Lei de 15 de dezembro de 1830, com o novo Código
Criminal, aliviou a pressão sobre a maçonaria. Destaque para o que estabelecia o
art. 202: - “A reunião de mais de 10 pessoas em uma casa em certos e
determinados dias, somente se julgará criminosa quando for para o fim de que se
exija segredo dos associados e quando neste último caso não se comunica em forma
legal ao Juiz de Paz do distrito em que se fizer a reunião”. “Penas: Prisão de 5
a 15 dias ao chefe, dono, morador ou administrador da casa e pelo dobro em caso
de reincidência”.
Como se constata, o ambiente ficou menos instável e perigoso para a criação
de Lojas maçônicas, bastando fazê-lo em distrito onde o Juiz de Paz não fosse
contrário à maçonaria.
No fim do ano de 1829 foi fundada por Antonio Joaquim de Souza, a Loja Amor da
Ordem. Finalmente, em princípio de 1830, foi reerguida pelo Cônego Januário da
Cunha Barbosa, a Loja Comércio e Artes.
Em 1830, um ano antes da abdicação de D. Pedro, foi fundada informalmente
uma outra Potência Maçônica Nacional, sob o nome de Grande Oriente Brasileiro ou
Grande Oriente do Passeio, que começou a funcionar oficialmente em 24 de junho
de 1831, constituído por três Lojas metropolitanas; a Vigilância da Pátria, a
União e a 7 de abril.
