Grande Loja Maçônica
do Estado do Rio Grande do Sul
24 de fevereiro de 2023

Três Lojas se tornam sesquicentenárias em 2023

Completar 150 anos é uma façanha para qualquer tipo de organização. São raríssimas, por exemplo, as empresas que alcançam essa idade. No mundo todo! Com uma Loja maçônica não é diferente. Sobreviver a um século e meio, atravessando crises políticas e econômicas, guerras, doenças de impacto mundial e tantos outros obstáculos é um feito que merece ser celebrado.

Três Lojas da Jurisdição da Grande Loja Maçônica do Estado do Rio Grande do Sul, fundadas em 1873, estão comemorando seu sesquicentenário neste ano: a Fund∴ Cent∴ Ben∴ Gr∴ Ben∴ Aug∴ Resp∴ Loj∴ Simb∴ Rocha Negra Nº 1 (Oriente de São Gabriel), a Fund∴ Cent∴ Ben∴ Gr∴ Ben∴ Aug∴ Resp∴ Loj∴ Simb∴ Caridade Santanense Nº 2 (Oriente de Santana do Livramento) e a Cent∴ Mui Exc∴ Aug∴ Resp∴ Loj∴ Simb∴ Philantropia do Sul Nº 226 (Oriente de Rio Grande).

ROCHA NEGRA Nº 1

Nascida em 29 de junho de 1873, a Rocha Negra, uma das fundadoras da Grande Loja, foi palco de muitos acontecimentos e decisões marcantes na história do Rio Grande do Sul e do Brasil. Foi na Rocha Negra, por exemplo, que quatro antes da Abolição da Escravatura, começou a libertação de escravos.

O primeiro Venerável Mestre, o médico Jonathas Abbott, instituiu que para ingressar na Loja, o candidato deveria libertar, no mínimo, dois escravos. A campanha abolicionista seguiu firme, quando, em 28 de setembro de 1884, numa sessão histórica, irmãos que integravam a Rocha Negra concederam Carta de Alforria para 900 escravos, acabando com a escravidão em São Gabriel.

A Rocha Negra teve em seus quadros nomes importantes, como o Conde de Porto Alegre (Marechal Manoel Marques de Souza), o Barão de Candiota (Francisco Chagas), o presidente (equivalente à época a governador) do Rio Grande do Sul, Fernando Abbott, e, o mais notório de todos, o herói de guerra, Manuel Deodoro da Fonseca, então coronel, comandante do 1º Regimento de Artilharia a Cavalo de São Gabriel. Mais tarde, em 1889, viria ser o Marechal Deodoro da Fonseca, proclamador da República e primeiro presidente do Brasil. A Rocha Negra mantém em seu templo uma cadeira, simbolizando o assento permanente de Deodoro entre os Obreiros da Oficina.

A organização das celebrações para esta data tão importante está em andamento, sob a liderança do Venerável Mestre, Irmão Rony Marcon, empresário do setor de educação profissional que dedica boa parte do seu tempo à gestão da Loja Rocha Negra e às causas mantidas pelos irmãos e cunhadas.

Entre as várias atividades, a Loja elaborou um selo dos 150 anos, lançado ainda no ano passado.

CARIDADE SANTANENSE Nº 2

Os primeiros indícios da presença maçônica no território de Santana do Livramento remontam à década de 1820 nos acampamentos militares decorrentes dos conflitos da Guerra da Cisplatina. Alguns chefes militares e nobres que participaram destes acampamentos pertenciam à Ordem e não se pode descartar que algumas reuniões maçônicas, mesmo que de forma improvisada, tenham sido realizadas neste período.

Durante a Revolução Farroupilha (1835-1845) os chefes farrapos, sabidamente maçons, transitaram pela região de Santana do Livramento. No museu da Loja Caridade Santanense há cópia do registro de que um dos maiores líderes do movimento, David Canabarro, foi iniciado no Grau 18 em uma reunião na localidade do Itaquatiá, no interior do município.

Quando da fundação da Loja Caridade Santanense, em 30 de abril de 1873, a cidade tinha aproximadamente 10.300 habitantes, muitos deles na zona rural. Na área urbana havia um porto seco onde as mercadorias que chegavam da Europa através do porto de Montevidéu passavam antes de seguir destino para outras cidades do Rio Grande do Sul. Esta proximidade maior com Montevidéu do que com o Rio de Janeiro fazia com que a cidade se diferenciasse das demais em diversas áreas, pois a influência inglesa e espanhola era maior que a portuguesa.

A Loja Caridade Santanense sempre se caracterizou pelo acolhimento de irmãos vindos de outros Orientes, das mais diversas nacionalidades: uruguaios, argentinos, italianos, espanhóis, portugueses, franceses, ingleses e brasileiros de vários estados da federação. Boa parte destes irmãos veio para a fronteira trabalhar nos frigoríficos que se instalaram. Esses irmãos influenciaram os hábitos sociais e políticos, inclusive na Maçonaria, pois trouxeram sua cultura e também influenciaram a Caridade na gestão e na revitalização do Rito Escocês Antigo e Aceito.

Outra marca característica da Loja Caridade é o pioneirismo e o estímulo ao progresso. Desta forma, outras Lojas surgiram de seu quadro de obreiros, bem como foi “madrinha” de outras tantas e, seu maior feito, é uma das fundadoras da Grande Loja Maçônica do Estado do Rio Grande do Sul.

O Venerável Mestre, Irmão Jair Gonçalves Albeche, observa que muito mais teria para ser dito sobre a rica história. Ele cita um trecho do hino da Loja, que retrata o orgulho e amor pela Loja: “Caridade, Caridade, Caridade, sua história de luz se fez, irradiando amor e fraternidade desde 1873”.

PHILANTROPIA DO SUL Nº 226

Na primavera do ano de 1873 de nossa era vulgar, mais precisamente no dia 24 de setembro, 49 Irmãos oriundos de outras duas Lojas de Rio Grande, sendo 24 Irmãos da Loja União Constante (fundada em 1840) e 25 Irmãos da Loja Acácia Riograndense (fundada em 1867), que já há algum tempo entendiam a crescente demanda por mais uma loja maçônica na cidade que pudesse contribuir para o amparo das inúmeras carências pelas quais a cidade passava naqueles tempos obscuros, fundavam então a Loja Philantropia

O primeiro Venerável foi o Irmão Cesar Augusto da Silva, que, após obter a autorização para funcionamento junto ao Grande Oriente Unido (RJ), na época dirigido pelo Irmão Joaquim Saldanha Marinho. Jornalista, sociólogo e político brasileiro, além de grande maçom, deslocou-se do Rio de Janeiro com seus pares para a sagração do templo, na época localizado no prédio da rua 16 de Julho, hoje Benjamin Constant, no centro da cidade.

Nesta época a Loja contava com 141 Irmãos, tanto que em 26 de dezembro de 1909, o primeiro prédio havia ficado pequeno para a grande quantidade de irmãos que se dedicavam ali às práticas das virtudes. Foi, então, lançada a pedra fundamental do novo edifício, onde no ano seguinte foi inaugurado um novo Templo, na rua Carlos Gomes, nº 665, no centro de Rio Grande, onde até hoje os irmãos se reúnem às segundas feiras.

Dentre os inúmeros fatos marcantes da história “antiga” da Loja, destaca-se a epidemia da Gripe Espanhola em 1918, pois sendo Rio Grande uma cidade portuária e com condições na época bastante precárias, o surto tomou proporções gigantescas, ao ponto de os hospitais, bem como o Quartel do Exército, transformado em hospital, ficarem lotados. Diante da situação, a Loja cedeu o espaço do Templo, criando um grande ambulatório que prestou auxilio durante toda a epidemia e os irmãos do quadro se colocaram à disposição para auxiliar no que fosse preciso.

Ao longo de sua história a Loja Philantropia sempre trabalhou muito em harmonia e frequente parceria com as demais Lojas do Oriente de Rio Grande. Tanto que em 1933 uniu forças com a Loja  Henrique Valadares, fundada em 1899, e passou a adotar o nome Lojas Unidas Philantropia - Henrique Valadares, que utilizou até 1937, quando uniu-se à Loja Estrela do Sul, passando-se a chamar finalmente Loja Philantropia do Sul. Seu primeiro Venerável Mestre foi o Irmão Theófilo Azevedo, hoje patrono da Loja.

Os irmãos dedicaram-se ao longo dos anos para a prática das virtudes, através da filantropia social dentro da comunidade riograndina, estando sempre envolvidos, dispostos e atuantes em todos os setores da sociedade.

Sempre renovando suas colunas e agregando pensamentos e esforços em prol de um bem maior, a Loja atravessou crises políticas e tantas outras provas que o tempo vai impondo, mas seguiu crescendo e gerando frutos e mais uma vez o templo se tornou pequeno.

Em 1968, em uma  sessão de 17 de janeiro, com a presença de 117 Irmãos do quadro, todos foram convocados para ajudar de forma manual na construção do novo templo e contribuir com CR$ 5,00 (cinco cruzeiros), durante 5 anos, para a construção do novo templo.

Com muita coragem, determinação e planejamento, no ano de 1973, centenário da fundação da loja, os bravos e valorosos Irmãos da Loja Philantropia do Sul terminavam a construção do novo templo para a sua devida sagração.

Este ano a Loja 150 anos de uma história de muita dedicação, amor e comprometimento de todos aqueles irmãos do passado e com a comunidade onde a Philantropia do Sul está inserida.

O Venerável Mestre, Irmão Marco Aurélio Almeida Ávila, diz que "as raízes, hoje fortes e profundas, dão a base para seguir sempre progredindo nos caminhos da Maçonaria e tornando os Irmãos agentes de mudança na sociedade".

Palavra do Grão-Mestre - O Sereníssimo Grão-Mestre, Respeitabilíssimo Irmão Tadeu Gomes Xavier, diz que todas as Lojas da Jurisdição são importantes para o crescimento da Maçonaria e da Grande Loja, mas as três sesquicentenárias servem de exemplo. “Essas Lojas atravessaram os mais duros períodos da nossa História, como crises políticas, guerras e epidemias, superando esses obstáculos e mostrando a capacidade do maçom de ir além, de se renovar e de se adaptar. A Caridade, a Rocha Negra e a Philantropia do Sul são merecedoras do nosso mais intenso aplauso e devem servir de modelo às Lojas mais jovens. A Grande Loja está orgulhosa de suas sesquicentenárias.”